Made In Japan entrevista Meiry Kamia

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por Karin Kimura

“Fazer o que a nossa alma pede é uma opção de vida”

Meiry deu os primeiros passos nos palcos, cresceu com números de mágica em apresentações com toda a família Kamia e hoje ela traz toda essa bagagem para sua carreira. Apaixonada pelo que faz, Meiry conta como os truques de mágica se transformaram em uma trilha de sucesso.

Os primeiros shows

Comecei com dois anos, por influência do meu pai. Na época ele administrava a rede de supermercados do meu avô, mas ele gostava mesmo era de shows de mágicas. E tudo começou quando um cliente pagou uma dívida com equipamentos de mágica e fez com que meu pai ficasse apaixonado por mágica. Ele começou a procurar outros mágicos para aprender mais um pouco porque naquela época não tinha internet, não existia tecnologias para aprender a fazer mágica. Era preciso ter um mestre.

Mas tinha um porém: meu avô não gostava de mágica e achava que era coisa de pessoas que não queriam trabalhar.

Então, meu pai começou a fazer shows de mágicas escondido do meu avô. No mesmo ano em que meu avô faleceu, meu pai teve leucemia. Ele ficou um ano e pouco de cama e, a partir daquele momento, ele passou a se dedicar àquilo que gostava mesmo: os shows de mágica. Era uma coisa que ele fazia de forma amadora e passou a fazer de forma profissional.

Ele sempre levava os quatro filhos no show e cada um fazia um número. Eu comecei com dois anos e nunca mais parei. Nós apresentávamos muito em programas de televisão, shows grandes e a empresa, que antes só fazia shows, passou a fazer também buffet, decoração, festas e eventos empresariais. Nós nos especializamos em eventos como um todo.

O aperfeiçoamento

Na adolescência eu comecei a ajudar também na parte administrativa da empresa então eu não tinha fins de semana porque sempre estava trabalhando, desde pequena. Eu e meus irmãos não participávamos muito de festas de escola porque estávamos sempre ocupados.

Eu também fazia aulas em escolas de circo para que o show de variedades fosse bem dinâmico, não só de mágicas. Com sete anos, já trabalhava em uma equipe de shows separada dos meus pais. A gente tinha muito trabalho, com três equipes e tinha vez que chegávamos a fazer até quatro shows no mesmo sábado e dois a três no domingo. Então nem tinha tempo para ficar namorando ou ir para baladas.

Nessa época eu comecei a me especializar em mágica, também por influência do namorado da minha irmã que era mágico do grupo Oriental Magic Show. Ele praticamente morava em casa e gostava muito de um estilo de mágica que é a manipulação. Para os mágicos, a manipulação (diferente da mágica de salão ou da mágica para crianças) é a mágica pura que exige maior habilidade manual do mágico com a arte de persuadir o público sem dizer nada. É uma apresentação em sequencias em que o mágico faz aparecer pombos, bolas, cartas e coisas desse tipo. Na minha carreira como mágica eu passei por várias fases: a mágica de salão, o close-up (que é a mágica de curta distância, em que as pessoas estão perto) e aprendi muitas técnicas com ele.

Na época também tive a oportunidade de participar de um concurso internacional de mágica, da Federação Latino Americana de Sociedades Mágicas (FLASOMA) e ganhar o prêmio me ajudou a sair um pouquinho da sombra do meu pai e mostrar que também tinha talento.

A presença das mulheres nos palcos de mágicas

O prêmio também foi importante porque existem poucas mulheres mágicas. Ainda é um ambiente muito machista e é um mercado bastante competitivo. É sempre mais difícil para as mulheres porque elas não são tão competitivas, elas são mais cooperativas. Tem pouca mulher até hoje e é uma questão que existe no mundo inteiro, não só no Brasil.

Depois que ganhei o prêmio, tive a chance de desenvolver minha carreira fora, mas como valorizo muito as relações familiares, resolvi ficar no Brasil. Me casei com meu primeiro marido, que também era mágico e aprendi muita coisa com ele, principalmente na parte técnica.

Novos rumos da carreira solo

Me graduei em psicologia porque sempre gostei muito de trabalhar com pessoas. Queria encontrar uma forma de juntar as coisas que eu gostava: a mágica e a psicologia. Em determinado momento da faculdade me encontrei com um dilema. Eu percebi que não dava mais pra fazer as coisas do jeito que eu fazia.

Eu me apresentava em programas de televisão – do Jô Soares, da Adriana Galisteu, da Eliana – só que o trabalho de um psicólogo clínico, por exemplo, não combina com esse tipo de exposição na mídia. E ainda, as faculdades dão um foco muito grande para a atuação em clínicas, raramente você consegue sair disso.

Eu comecei a perceber que eu chegava num ponto em que eu tinha que decidir entre a mágica e a psicologia. E eu vi que não daria muito certo trabalhar ali, dentro de uma salinha porque eu gostava de trabalhar com muita gente e que eu gostava muito da área organizacional, especificamente a área de treinamento. Como eu já tinha uma vida financeira e profissional independente, eu comecei a migrar aos poucos, como consultora e como professora.

Sempre me colocava à disposição e os professores acabavam me chamando, pela minha facilidade de me comunicar. E se tem uma coisa que eu odeio é quando, no meio da aula, a pessoa se levanta para sair . Para mim, a aula precisa ter mais ou menos o ritmo de um show, para que as pessoas tenham vontade de ficar e que deixem para ir ao banheiro ou atender o telefone na hora do intervalo.

Quando eu ia dar minhas aulas, eu comecei a inserir algumas mágicas para ilustrar conteúdos e deu muito certo. Eu usava vários recursos visuais, mágicas mais lúdicas, contava alguns casos engraçados, pois eu acho que fazer rir no momento de aprendizagem facilita o aprendizado e aí eu comecei a ver que tinha uma fórmula bacana para as aulas.

Ao mesmo tempo, eu já tinha amigos que atuavam como palestrantes nessa área organizacional, misturando a mágica com o conteúdo. Eles já estavam desbravando esse mercado. Decidi que queria seguir essa área porque eu poderia juntar duas coisas que eu gostava de fazer.

Com o tempo eu fiz a migração. Eu assumi a direção da Kamia Eventos e continuei trabalhando nas duas empresas, como consultora e em eventos. Eu me desdobrava e ainda resolvi fazer um mestrado em administração.

As consultorias

Esse histórico todo em eventos me deu respaldo para o que eu enfrento hoje no mercado de trabalho. Eu presto serviços para empresas com necessidades diferentes e o cenário em que cresci com tantas pessoas envolvidas – e de hierarquias diferentes – me deu um jogo de cintura muito grande para lidar com pessoas.

Depois de um tempo eu consegui fazer uma migração total, só para a área de consultoria e hoje trabalho só com isso. Tenho como carro-chefe as palestras com o diferencial da mágica e os treinamentos que são mais dinâmicos e fechados para grupos menores.

Os treinamentos são organizados em grupos de até dez pessoas e trabalham o comportamento dos funcionários, o desenvolvimento de proatividade, comunicação, etc. O conhecimento é adquirido de forma ativa, ou seja, ninguém fica sentado. A metodologia que eu desenvolvi para o treinamento também é diferenciada, com base nas artes dramáticas, com técnicas de teatro para desenvolver comportamentos. A minha teoria é de a a gente só aprende um novo comportamento se o transformarmos em ação, quando ele sai do plano da ideia.

O grande problema da nossa sociedade não é a informação, mas a prática, o “como fazer”. Por exemplo, hoje, mais de 50% da população é obesa e todos sabem que para combater isso é preciso fazer uma dieta alimentar e praticar exercícios físicos. Porém, poucas pessoas conseguem se disciplinar. E isso deve ser alcançado como? Com a ação. A iniciativa vem da ideia de que a pessoa faz porque ela quer, não porque alguém manda.

As empresas só vão atrás quando o bicho já pegou, quando o mercado já mudou. E aí tem que correr atrás do prejuízo, enquanto que o correto é trabalhar de forma proativa, ou seja, perceber as necessidades futuras e começar a trabalhá-las no presente. Por exemplo, hoje as promoções de liderança são feitas pelo tempo de casa ou pela confiança enquanto que a avaliação pela competência tende a cair. Mas, quando a pessoa chega a um cargo de liderança, ela precisa de competências específicas como saber se comunicar e desenvolver a equipe. As pesquisas indicam que o bom líder precisa conhecer apenas 20% do processo e 80% é competência emocional. O grande ganho do líder está na gestão de pessoas. Ajudo as empresas a criar uma cultura proativa.

Meiry Kamia por Meiry Kamia

Tudo que eu prego, eu faço, a gente tem que ter uma coerência naquilo que a gente prega. Quando eu era pequena eu era muito tímida. Eu tinha muita dificuldade, por incrível que pareça, até de fazer amizade. A minha experiência me fez perceber que qualquer pessoa pode fazer aquilo que desejar, basta que ela determine o que ela deseja na vida.

Para qualquer mudança é importante aquele momento em que a pessoa não aguenta mais a situação. Só que isso não se consegue de uma hora para outra. É preciso ir mudando aos poucos. A teoria da aprendizagem social explica que a gente aprende pela observação. Eu, por exemplo, comecei a imitar alguns aspectos do comportamento da minha irmã, da minha tia. Até que aquilo foi se tornando mais natural.

O caminho do autoconhecimento é infinito. E é importante que a gente tenha humildade nesse caminho. Reconhecer que a gente tem coisas para desenvolver, que a gente não sabe tudo, mas sem deixar de gostar de si mesmo.

Temos muito essa tendência à síndrome de baixa autoestima. Se eu pedir para alguém listar 10 aspectos negativos a pessoa tem na ponta da língua, mas se eu pedir para ela listar 10 coisas positivas ela para na segunda. Quando você passa a focar em você, você deixa de focar no outro e passa a compreender melhor as dificuldades do outro, passa aceitar melhor as outras pessoas e traz amor para você mesmo, amor é aceitação. Você não nega aquilo que Jung chama de sombra, você não nega os seus defeitos.

Uma vez, eu estava no intervalo do show me maquiando no banheiro e comecei a conversar com uma mulher. Comentei que tinha me separado e ela falou : “Nossa, mas vocês palestrantes parecem ser tão perfeitos, não parece que têm esse tipo de problema”. E eu falei: “nunca ache que alguém tem a vida melhor que a sua. Somos seres humanos e a gente está aqui para aprender. Não estamos livres de qualquer sofrimento. Até porque são pelos grandes sofrimentos da vida que a gente aprende”.

Todo mundo vai perder uma pessoa, vai passar por um luto. Isso é importante porque a morte faz com que a gente valorize e repense a vida. Então um casamento que se acaba, uma profissão que faz uma migração, isso tudo acontece com todos os seres humanos, é uma ilusão pensar que existe alguém perfeito ou livre de sofrimentos.

Eu como Meiry, pessoa, levo a vida dessa forma, tentando me conhecer primeiro para então ajudar as pessoas, o tempo todo me observando como estou sendo como mãe, como amiga, como profissional. Tento me equilibrar.

Eu vivo o meu trabalho e gosto muito. Fazer o que a nossa alma pede é uma opção de vida. A gente aprende a se desprender de outras coisas e ter coragem de fazer aquilo que quer, ir atrás do que nos faz feliz.

Link da entrevista: http://madeinjapan.uol.com.br/2014/04/08/entrevista-com-meiry-kamia/