ELOGIOS QUE ATRAPALHAM

Você sabia que elogios podem piorar o rendimento escolar do seu filho?

por Meiry Kamia

É muito comum ouvirmos pais elogiarem seus filhos dizendo “puxa, como você é inteligente filho(a)!”, como forma de incentivo ao estudo. Esses pais partem do pressuposto de que se elogiarem constantemente seus filhos, isso aumentaria a autoestima e confiança dos mesmos e os estimularia a enfrentarem novos desafios acadêmicos. No entanto, pesquisas realizadas nos EUA, descritas por BRONSON e MERRYMAN no livro “Os 10 erros mais comuns na Educação de Crianças” mostram justamente o contrário.

Carol Dweck e sua equipe, da Universidade de Colúmbia, conduziram uma pesquisa dividida em quatro fases, com 400 estudantes do 5º ano.

Na primeira fase, os alunos foram retirados da sala um a um para a realização de um teste. Ao término do teste, os alunos foram separados aleatoriamente em dois grupos que receberam elogios diferentes: um grupo recebeu elogios relacionados à sua inteligência , ex: “como você é bom nisso!”, e o outro grupo recebeu elogios pelo esforço empregado na tarefa: “você deve ter se esforçado bastante!”.

Após essa primeira fase, os alunos foram convidados a realizar um segundo teste, mas dessa vez, os alunos poderiam escolher o tipo de teste que queriam realizar. Havia uma opção bem mais difícil que a primeira fase, mas os pesquisadores incentivavam os alunos dizendo que eles poderiam aprender muito ao tentar montar o quebra-cabeça. E o outro teste era muito similar ao primeiro já realizado. Dos alunos que receberam elogios relacionados ao seu esforço, 90% escolheu o desafio mais difícil, enquanto que a maioria que recebeu elogios relacionados à inteligência escolheu o desafio mais fácil.

Na terceira fase, os alunos já não podiam escolher, e foram submetidos a um teste muito mais difícil em que todos falharam. O grupo de alunos que receberam elogios na primeira fase relacionados ao seu esforço, concluíram que talvez não tivessem se empenhado o bastante no teste. Já o grupo que recebeu elogios relacionados à inteligência, concluíram que o fracasso apenas comprovava que eles não eram inteligentes.

Após induzirem os alunos ao erro, os pesquisadores, na quarta fase, aplicaram uma última rodada de testes em todos os alunos, mas dessa vez, um teste tão fácil como o da primeira fase. Resultado: o grupo elogiado pelo esforço teve melhora de 30% em seu desempenho, enquanto que o grupo elogiado pela inteligência teve queda de 20% referente ao primeiro teste realizado!

O experimento demonstra que enfatizar o esforço da criança dá a ela a sensação de que ela pode controlar o seu sucesso, e se falhar, basta se esforçar mais da próxima vez. Por outro lado, elogiar a inteligência retira o controle da criança – porque inteligência é uma variável que não se controla – e também não orienta como a criança pode reagir em caso de fracasso, gerando frustração. Outro raciocínio que a criança pode ter é “se eu sou inteligente, então não preciso me esforçar”, e ela entende que só deve se esforçar aqueles que não possuem atributos naturais como ela possui.

Elogios são importantes, mas para surtirem efeitos positivos, devem ser baseados na realidade. A partir dos 7 anos a criança já têm discernimento para julgar se um elogio é sincero ou não e quando percebem que os elogios não são sinceros, passam a desconsiderar todos os elogios, inclusive os sinceros.

Elogiar demais uma criança também pode fazer com que ela aprenda a fazer coisas apenas pelo elogio e não pelo prazer de fazer. Alguns estudos demonstraram que crianças elogiadas demais se tornam mais competitivas, podendo até mentir apenas para ganhar elogios.

Um estudo realizado pelo psicólogo Wulf –Uwe Meyer mostrou que crianças acima de 12 anos, por exemplo, não recebem bem elogios de professores, pois consideram que seus mestres acham que não têm capacidade suficiente, portanto, precisam de estímulo extra. Seu estudo constatou que os adolescentes ficam tão insensíveis aos elogios que preferem as críticas, uma vez que a crítica do professor, para eles, demonstra o quanto ainda tem potencial para desenvolver e o quanto o professor acredita neles.

Muitos pais também cometem o erro de tentar acobertar as experiências negativas, dificuldades escolares e fracassos dos filhos. Uma pesquisa realizada por Florrie Ng, da Universidade de Illinois, fez um comparativo entre mães americanas e mães chinesas.

As crianças foram convidadas, juntamente com as mães para a realização de dois testes. No momento do primeiro teste, as mães aguardavam os filhos numa sala de espera. Entre um teste e outro, era permitido que as mães entrassem na sala do teste para falar com o filho. Ao entrar na sala, as mães eram informadas da nota do filho e mentiam dizendo que a nota estava abaixo da média. As mães tinham cinco minutos para falar com os filhos e câmeras gravaram a interação. 

As mães americanas evitavam falar sobre os aspectos negativos do teste, às vezes desviavam o assunto para outras coisas, mantendo o otimismo. Já as mães chinesas mantinham o foco no teste e faziam comentários com o “você não prestou atenção ao responder”, ou “vamos dar uma olhada no seu teste”.

Após o intervalo, as crianças foram submetidas a um novo teste e as crianças chinesas tiveram um desempenho de 33% de melhora em relação ao primeiro teste, mais que o dobro da melhora do desempenho das crianças americanas.

Ensinar as crianças a enfrentarem situações difíceis prepara-as para desafios futuros e ensina a perseverar. Pais erram quando fingem que não estão vendo os problemas enfrentados por seus filhos ou quando simplesmente tentam resolver por eles, achando que estão protegendo do sofrimento. Os desafios devem ser encarados como oportunidades de crescimento. Ao manter-se firmes diante da dificuldade o cérebro é ensinado a trabalhar para a solução e perseverar, e a criança aprende a postergar a necessidade da recompensa. Crianças que são recompensadas o tempo todo não desenvolvem perseverança, e desistem assim que recebem a recompensa.

Portanto, para você que é pai, mãe, educador, se desejam filhos saudáveis no futuro, ao fazer um elogio basta seguir essas três regrinhas básicas:

  • Honesto: o elogio deve ser respaldado na realidade e nunca dado apenas para agradar.
  • Objetivo: é preciso citar o que a pessoa fez de bom, que comportamentos ela executou e quais as consequências. Por exemplo, se a criança tirou uma boa nota na prova, deve dizer o quanto ela foi esforçada, o quanto estudou, o quão disciplinada foi, etc.
  • Construtivo: o elogio sempre deve direcionar o comportamento futuro. Se por acaso, a questão envolver alguma falha, ou um desafio muito grande, o elogio deve ajudar a criança a superar a situação negativa e/ou desafiadora de forma a criar estratégias para a solução do mesmo. Deve dar dicas de como a pessoa deve agir para melhorar o rendimento futuro. 

MEIRY KAMIA – Palestrante, Psicóloga, Mestre em Administração de Empresas, Consultora Organizacional e Docente em MBA de Gestão de Pessoas. Também é ilusionista, premiada como melhor mágica feminina da América Latina, pela Federação Latino-Americana de Sociedades Mágicas. Desenvolve palestras motivacionais e treinamentos diferenciados, aliando Arte Mágica, Teatro e Psicologia. Site: www.meirykamia.com; contatos: 11-2359-6553; [email protected]