ESPIRITUALIDADE NO TRABALHO

*Por Meiry Kamia

Quando falamos em “espiritualidade” automaticamente pensamos em “religião”, entretanto, apesar de complementares, os conceitos são diferentes. De acordo com o Dicionário Mini Aurélio, Religião significa “1. Crença na existência de força ou forças sobrenaturais. 2. Manifestação de tal crença pela doutrina e rituais próprios. 3. Devoção.”, ou seja, religião envolve uma questão racional, a crença compartilhada em uma força superior, cuja relação com o divino é manifestada por meio da doutrina e rituais específicos de cada religião.

Já Espiritualidade significa “1. Qualidade ou caráter de espiritual. 2. O progresso metódico dos valores espirituais.”, ou seja, a espiritualidade envolve a própria relação com o espírito. Dessa forma, a religião deveria conduzir à espiritualidade.

A espiritualidade é um dos pilares do sucesso. Em texto anterior falei sobre a importância de desenvolver simultaneamente os quatro pilares: Pilar Mental – relacionado ao pensamento racional, lógico e conhecimento técnico; Pilar Emocional – relacionado às emoções, sentimentos, sensibilidade em geral; Pilar Físico – relacionado à saúde física, através da boa alimentação e hábitos saudáveis; e, por fim, o Pilar Espiritual – relacionado ao desenvolvimento das virtudes humanas como: compaixão, amizade, respeito, disciplina, força de vontade, humildade, coragem, esperança, etc, que dão base aos princípios morais e éticos e guiam a conduta humana para a boa convivência social e felicidade. O desequilíbrio dos pilares trarão problemas em diversas áreas da vida da pessoa, por exemplo, sucesso no trabalho, mas fracasso na família; ou, sucesso no amor, mas fracasso na saúde; e por aí vai.

A espiritualidade faz parte da história dos seres humanos e é um guia fundamental do bem viver. Todas as religiões pregam a paz no mundo, o amor ao próximo, o altruísmo, a humildade, a paciência, etc. O homem precisa ser guiado, inspirado, por algo que seja maior que ele mesmo, caso contrário, o próprio homem tomaria o lugar de poder absoluto, e é fácil imaginar a catástrofe que esse fato poderia tomar.

Mas foi mais ou menos isso o que aconteceu nesse período pós-moderno que estamos vivendo. O homem foi colocado no centro do universo do consumo, as empresas se desdobram para atender a tantos desejos personalizados, que são comprados e descartados com muita rapidez, até mesmo os relacionamentos amorosos e interpessoais. O “outro” tornou-se secundário, e o mais importante é o “eu”, cujo valor e importância são medidos pelo número de curtidas que recebem nas redes sociais. O egoísmo e a vaidade imperam em todos os âmbitos e é claro que o mundo corporativo não escapa, ao contrário, a somatória: “orgulho + vaidade + poder”, é prato cheio para observar o individualismo exagerado, falta de compaixão com o outro que precisa de ajuda – finge-se que não vê, panelinhas, inveja, falta de ética, falta de respeito e até mesmo assédio moral, infelizmente, permeiam o dia a dia das empresas.

Saímos do período moderno, onde imperavam as certezas e caímos no mundo pós-moderno onde tudo é relativo. As regras de conduta que eram rígidas demais passaram, de repente, a serem fluidas demais, e com isso o homem também, confuso com relação aos seus princípios, valores e direcionamento da vida, se angustia e sofre.

Lembrando que, em todo processo de mudança, a tendência é que caiamos no extremo oposto, para só depois, encontrar o caminho do meio. E é isso que a sociedade está entendendo nesse momento. Rigidez demais não é bom, mas flexibilidade demais também não é.

Com a falta dos princípios rígidos, sofremos uma grande crise de valores que atinge todos os âmbitos sociais: familiar, educacional, empresarial, político, econômico, nas relações amorosas, etc, trazendo um clima de insatisfação geral, tristeza, medo e ansiedade. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 332 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão. Nas Américas, o Brasil fica em segundo lugar, perdendo para os Estados Unidos. Entretanto, quando o assunto é transtorno de ansiedade, o Brasil, infelizmente lidera o ranking mundial com 9,3% das pessoas afetadas. E a projeção é que em 2020, a depressão seja a segunda maior causa de afastamento no trabalho. Outro estudo apontou que o consumo de antidepressivos deu um salto de 76% de aumento nos últimos 6 anos.

Em paralelo a esse cenário, vemos o crescimento expressivo das organizações religiosas em nosso país, um levantamento feito pela Receita Federal mostrou que, de janeiro de 2010 a fevereiro de 2017, 67.951 novas organizações religiosas ou filosóficas foram registradas no País, praticamente uma nova igreja é aberta a cada hora. Isso mostra que as pessoas estão percebendo que algo está faltando em suas vidas, e é justamente aí que entra a espiritualidade.

Talvez de forma intuitiva, muitas pessoas estão entendendo que deixaram para trás algo muito precioso para suas vidas e que não pode ser comprado em lojas, que é o contato sua própria fonte de energia, o contato consigo mesmo, que alimenta a esperança e a motivação e que se dá através da espiritualidade.

A maioria das pessoas perde rapidamente a motivação porque comete o erro de estabelecer para si metas puramente “materiais”, ou seja, trabalha-se para trocar de carro, comprar uma casa, ter um corpo perfeito, relacionamentos que possam tirar vantagens, etc. Enquanto que, a verdadeira base e força da motivação encontram-se nos propósitos “imateriais”, divinos, ou espirituais, que estão ligados não ao “TER”, mas ao “SER”. Toda meta motivacional deve ter esses dois propósitos juntos, e aí está a grande contribuição da espiritualidade no trabalho.

Não se deve trabalhar para se tornar um diretor executivo somente para usufruir maior poder, conforto, alto salário e benefícios. É preciso que o profissional lute para ser um diretor executivo, para poder desenvolver muito mais pessoas, transformar seus colaboradores em seres humanos melhores, não só no nível profissional, mas também pessoal, cujo desenvolvimento se dará com base em princípios espiritualistas tais como: honestidade, ética, respeito, justiça, responsabilidade, etc. É preciso que o líder se comprometa consigo mesmo inspirado pelos propósitos espiritualistas, pois são eles que darão estrutura psicológica para enfrentar as dificuldades, ou quando os recursos materiais faltam.

O líder serve de modelo para sua equipe, e esta admirará e imitará sua conduta diária. Toda equipe é reflexo do líder. Da mesma forma que todo filho é reflexo da dinâmica dos pais. A grande crise que vivemos hoje é uma crise de valores, e todos nós percebemos que quando abandonamos o nosso “guia interno” – que você pode chamar de intuição ou espiritualidade, a vida se torna um caos e sem propósito.

Um dos fatores que mais retém talentos dentro da empresa é a percepção do funcionário sobre o quanto ele cresceu como ser humano e profissional dentro daquela empresa. Sendo assim, a educação espiritualizada deve ser implementada nas empresas, independente de qualquer religião, simplesmente porque ela integra o ser humano, o lado racional e emocional, o material e imaterial, a rigidez e a flexibilidade, etc. A espiritualidade inspira a boa ação, o comprometimento, além de dar bases para suportar as dificuldades quando todos os recursos materiais nos são tirados, porque gera esperança.

MEIRY KAMIA – Palestrante, Psicóloga, Mestre em Administração de Empresas, Consultora Organizacional, Graduanda em Teologia. Autora do livro “Motivação Sem Truques”. Também é ilusionista, premiada como melhor mágica feminina da América Latina, pela Federação Latino-Americana de Sociedades Mágicas. Desenvolve palestras motivacionais e treinamentos diferenciados, aliando Arte Mágica, Teatro e Psicologia. Site: www.meirykamia.com; contatos: 11-2359-6553; [email protected]

Fontes:

  • BAIMA,C.; GRANDELLEO,R. O GLOBO. Brasil é o país mais deprimido da América Latina, aponta OMS. Fev, 2017. Disponível em> https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/brasil-o-pais-mais-deprimido-da-america-latina-aponta-oms-20969009#ixzz4omqybvzX > Acesso em: 04 de ago. 2017.
  • Grupo Independente. Consumo de antidepressivos cresce 74% em seis anos no Brasil. Jul, 2017. Disponível em: http://independente.com.br/consumo-de-antidepressivos-cresce-74-em-seis-anos-no-brasil/> Acesso em: 04 de ago. 2017.