RELACIONAMENTOS SUPERFICIAIS

Por Meiry Kamia*

Relações superficiais, amizades vazias, aumento do número de divórcios, alta rotatividade nas empresas, falta de comprometimento. Como o cenário atual está afetando nossos relacionamentos no trabalho, no amor e na família? Compreender o que está por detrás dessa superficialidade pode nos ajudar a encontrar soluções mais saudáveis para nossas vidas. Ao final, você vai conhecer uma dica muito simples, mas que pode até salvar vidas.

Se você perguntar às pessoas a sua volta se elas sentem que estão vivendo numa sociedade de relações superficiais, verá que a maioria responderá “sim”, e exemplos não faltarão: nas ruas vemos um egocentrismo exacerbado, falta de solidariedade, de respeito e de ética. No trabalho: falta de comprometimento, falta de apoio. Em casa: dificuldade de convivência familiar e entre casais, falta de autoridade dos pais, filhos rebeldes, etc.

Apontar o dedo para os defeitos da nossa sociedade não resolverá o problema. Mas compreender as razões que nos levaram a nos comportarmos dessa forma, talvez nos ajude a criar soluções mais saudáveis.
Muitos filósofos defendem que estamos vivendo um período denominado pós-modernidade, que teve início por volta de 1950 e é marcado pelo hiperconsumo e pelo “ser digital”. Entramos num mundo dinâmico, em que as incertezas imperam, temos muita liberdade, muitas novidades de produtos, muitas possibilidades de experiências. Mas o ser humano tem muita dificuldade em lidar com tamanha liberdade, pois ao mesmo tempo, ela seduz e gera medo.

Vamos refletir agora sobre o nosso cotidiano e as incertezas do mundo moderno, imagine a cena: Chegamos do trabalho, exaustos pela pressão dos prazos curtos, por cobranças por resultados, um medo terrível de ser taxado de incompetente, de ser demitido em plena crise de empregos, e quando chegamos em casa, para relaxar, ligamos a televisão. E o que vemos? O aumento do desemprego, ameaças de guerra, violência nas ruas, falta de segurança, saúde e educação deteriorados, corrupção, etc. Qual a emoção gerada por todos esses estímulos? MEDO.

Quando sentimos medo, temos uma tendência natural para tentar minimizar o risco, controlando a situação. Como sabemos que não podemos controlar o governo, a empresa, o transito, a violência das ruas, etc, voltamos nossa atenção para o controle da comida (contar calorias, suplementar, jejum, etc); tentamos controlar o corpo (a massa magra, os exercícios, e cultuamos o corpo); tentamos controlar a saúde, ficando atentos às dicas (5 sinais do estresse, 12 sinais de que você está prestes a ter um ataque cardíaco); tentamos controlar a segurança pessoal (ex: o Brasil é o país com mais carros blindados no mundo, deixando para trás Estados Unidos e México (2017, dados da Associação Brasileira de Blindagem); fazemos seguros de vida e de saúde, controlamos os namorados, etc. E daí, é um pulinho para os TRANSTORNOS DE ANSIEDADE, sendo o TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo, a manifestação dessa tentativa de controle através dos rituais (O Brasil é líder no ranking mundial de transtornos de ansiedade, dados da OMS).

Tais preocupações mundanas gastam tanta energia e deixam nossas mentes tão ocupadas, que não conseguimos refletir sobre aspectos mais importantes da vida como, por exemplo, nosso propósito de vida, nossa missão de vida, etc. A rotina, instituída para aplacar a insegurança do dia a dia, vira tédio, trazendo uma eterna insatisfação com a vida, com o trabalho, com as relações. Vivemos como zumbis, com corpos vivos, porém com a alma amortecida cumprindo tarefas corriqueiras. Talvez, esse esvaziamento do sentido da vida ajude a explicar o aumento do número de depressão no Brasil que, atualmente ocupa o terceiro lugar no ranking mundial, dados da OMS – o consumo de antidepressivos cresceu 74% em 6 anos.

Outra reação típica do medo é a tendência de nos colocarmos na defensiva diante da vida e das pessoas, e a tendência de buscarmos culpados para os nossos sofrimentos. Culpamos o governo, a polícia, o vizinho que não me deixa dormir, o povo que dirige na rua lerdo demais, e não me deixa ultrapassar, etc, só que esse rancor, a longo prazo, vai sendo deslocado para as demais pessoas. E passamos a ter uma dificuldade em estabelecer relações de confiança, porque estamos sempre à espera de algum ataque ou decepção.

Nas redes sociais, a alegria do encontro pela possibilidade de fazer novos amigos é rapidamente substituída pelo medo da inadequação, do julgamento do outro: “nossa, o que minhas amigas vão falar dessa foto?”, “tira outra porque fiquei feia, ou gorda, ou meu braço está gordo”, etc.

Então o outro é sempre visto como alguém que existe para nos causar sofrimento: No trânsito, porque é lerdo; no trabalho, porque me pressiona; nos relacionamentos amorosos, porque não reage da forma que eu quero; e, para me defender do sofrimento psíquico, eu evito me envolver. Mas pior que isso, é quando isso gera indiferença, porque podemos cair na psicopatia. Ou quando a própria pessoa se transforma no agente do medo. É o caso dos agressores: como eles não conseguem lidar com o medo, eles passam a gerar o medo nos outros, ameaçam, agridem, etc.

E qual é a solução para tudo isso? A única forma de acalmar alguém com muito medo é acolhendo esse medo, e fazemos isso falando sobre ele. Só precisamos de alguém que nos aceite com o nosso medo e se disponha a nos ouvir falar sobre ele.

Atualmente, carecemos de um lugar para fracassar, que deveria ser o nosso lar. No entanto, hoje estamos órfãos desse lugar, onde não precisamos usar máscaras, onde não precisamos ser perfeitos, onde podemos cair, chorar e levantar para tentar novamente.

Mas nossos lares estão doentes, estão todos assustados e ninguém se dispõe a fazer o primeiro ato de acolhimento, que é ouvir. É perguntar para o familiar como ele está, é conversar com o marido, com os filhos, e querer saber se estão bem, se estão com algum problema. A solução para tanto medo é simples, é acolher e ouvir.

A conversa, o falar e o ouvir, são ações básicas para o desenvolvimento da confiança, da intimidade, do respeito, do comprometimento e das relações duradouras. A base do acolher e do ouvir é o amor. Por isso se diz que o amor cura, porque ele acolhe e mostra que nem tudo é tão ruim. Ter alguém para ouvir pode até salvar vidas.

Podemos não solucionar todos os problemas do mundo, mas com um simples ato de amor e acolhimento, com uma simples pergunta genuína “como você está?”, e estar disposto a ouvir, com certeza, trará grandes mudanças no ambiente a sua volta.

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