Meiry Kamia da entrevista para Agência de Notícias – O Retrato das Mulheres fora das quatro linhas.

Musas de futebol: O retrato das mulheres fora das quatro linhas

As musas do futebol representam seus times do coração com muita beleza. Seus rostos frequentam as clínicas de estéticas e seus corpos são preparados com muita dieta e malhação para estarem nos holofotes. Ainda sim, uma vez ao ano elas colocam tudo isso em jogo, quando participam de competições como a “Musa do Brasileirão” – concurso independente que acontece anualmente para eleger as mais belas de cada clube e a mais bela dentre todas as concorrentes.

Dentro da realidade das musas, em uma das modalidades mais machistas do esporte, a atenção é direcionada  para seus corpos e seu conhecimento sobre as quatro linhas é deixado de lado. A objetificação das mulheres no papel de musa, por parte dos clubes e das instituições que realizam os concursos, é uma questão antiga, polêmica e cada vez mais discutida.

Juliana Santos, 32 anos, foi eleita em 2018 como a musa do São Paulo Futebol Clube.“Ser a musa do São Paulo era meu sonho. Meu papel é incentivar meu time e os torcedores, afinal, quem não quer ter musas e torcedoras lindas? Creio que o futebol fica muito melhor quando nós somos envolvidas. Estou aqui para firmar que mulher pode ser sim musa, sensual e entender de futebol”, diz.

Contudo, o tema ‘Musa x Objetificação’ vai além do campo. Comentários machistas quase sempre são pautas em entrevistas e em concursos nos quais participam, ou até mesmo em uma conversa informal as deixando em um contexto constrangedor. Diante desse cenário delicado, nem todas sabem como proceder, principalmente quando estão sendo observados por milhares de pessoas.

Segundo a musa do São Paulo, os comentários podem ser relevantes, tudo depende de como a conversa está fluindo. “Se a musa der uma brecha para uma situação, ok. Do contrário, é totalmente ofensivo. Mulher bonita tem cérebro e suas opiniões. Deve ser respeitada independentemente da roupa que usa ou de suas curvas”, explica.

Ainda sobre situações embaraçosas, a musa do tricolor do Morumbi conta que machismo existe em qualquer ambiente e que não deixa passar qualquer acontecimento de mau gosto que surja.

“Machista existe em todo lugar, pois sempre têm os que vem até a mim com alguma piadinha. Eu simplesmente coloco cada homem sem noção em seu lugar. Muitos chegam para discutir sobre futebol comigo, sempre com a ideia de que eu não entendo nada a respeito e acabam saindo com o ‘rabinho no meio das pernas’”, comenta Juliana.

 

Nas arquibancadas, mulheres se incomodam com a objetificação

A paixão pelo futebol se confunde com a infância da auxiliar administrativa Raiane Vieira, 19 anos, de São Paulo (SP). Quando criança, já acompanhava o esporte ao lado dos tios. São paulina, ela conta que seu sentimento em relação ao clube do Morumbi foi “amor ao primeiro jogo”.

Hoje a jovem faz parte do “São Pra Elas”, movimento de mulheres tricolores que frequentam os jogos e acompanham os passos dados pelo time dentro e fora das quatro linhas. Para a torcedora, o machismo presente no futebol é algo deprimente, que faz com que as mulheres se afastem do esporte simplesmente por sentirem medo.

Raiane não concorda com a figura das musas, pois acredita que mesmo com o consentimento da mulher exposta, elas passam a ser tratadas como objeto.

“Eu acredito que não deveria existir ‘musa’, esse é um dos principais motivos da sexualização das mulheres no esporte. Usam uma mulher praticamente nua para ‘divulgar’ uma equipe. Se for para existir, que seja para quebrar padrões e mostrar que mulher não é um objeto para embelezar o esporte”, opina.

 

Exposição é resultado de comportamentos machistas reproduzidos até hoje

A reportagem conversou com a psicóloga Meiry Kamia, de São Paulo (SP), para entender a relação de machismo presente no esporte.

“O futebol é só mais um campo onde a gente enxerga essa objetificação. Porque a gente [clube] coloca a mulher como um troféu para ser conquistado ali. A gente sabe que os caras vão para o torneio não só para ver os caras jogando bola, mas também se divertem olhando as mulheres. Isso acaba perpetuando o ciclo de objetificação”, explica.

Kamia destaca que o fato das musas precisarem mostrar o corpo para estar onde estão, é sinal de que elas não são apenas representantes do clube.

“O time tem que jogar e elas não jogam. Você não vê nenhum cara bonitão, másculo e tal só para dizer: ‘Eu sou o representante do meu time’. Não existe um representante masculino neste sentido. Na leitura subliminar, a menina está lá porque é a menina objeto”, diz a especialista.

Entretanto, a psicóloga alerta que julgar as mulheres à frente do time é errado. Segundo ela, o posicionamento dessas moças pode estar associado à carência e a uma necessidade de reconhecimento, em vista que a sociedade valoriza quem está em evidência.

A especialista lembra ainda que essa exposição pode ser o sonho da vida dessas meninas, que na maioria das vezes ainda não foram desconstruídas.

“Faz parte de um sistema e elas são parte do sistema como todo mundo. Qual é o papel de cada um de nós? Olhar para isso, começar a ter consciência e discernimento para poder tomar conta da nossa postura”, recomenda Kamia.

 

Mulheres apontam soluções para combater o machismo

A psicóloga Meiry Kamia afirma que é até possível alterar esse cenário, porém, ressalta que a mudança começa dentro de cada pessoa. “Quando a gente fala de mudança social, a gente está falando de uma mudança de conduta individual. Porque o social é uma representação da somatória dos indivíduos”, defende.

Kamia ressalta ainda que esse processo não acontece de uma hora para outra. Ele é demorado, difícil e envolve educação e o controle de instintos.

“É uma questão de educação, o que é difícil, porque o instinto fala muito alto. E nós estamos em uma sociedade em que o instinto fala a todo o tempo. É difícil segurar o instinto em prol do respeito ao outro”, finaliza a especialista.

Para a torcedora Raiane Vieira, o combate ao machismo também passa pelo posicionamento da mulher como torcedora: “A mulher precisa se impor e nunca desistir do seu amor pelo esporte e pelo clube. Ir ao estádio, acompanhar o seu time e fazer o possível para que percebam que o esporte é lugar de mulher sim”.

Dirigentes alegam uma coisa, técnica acredita em outra

O Futebol é considerado paixão nacional, mas, em pleno século XXI, ainda não é um esporte para todos os sexos.

O novo regulamento publicado pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) em 2016, determina que a partir de 2019 todos os clubes que queiram participar das competições que a entidade organiza devem possuir uma equipe feminina adulta e uma de base. Até então, diversos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, como São Paulo, Palmeiras, Flamengo, Fluminense, entre outros, não investiam na categoria.

Contudo, algo que os clubes nunca deixaram de lado foram as competições que envolvem as musas. Até mesmo quem atua internamente nos clubes, questiona a tradição que promove concursos para eleger a “mulher mais bela”. A técnica do time feminino do Santos, Emily Lima, contesta a importância que dão à essa tradição, enquanto grande parte dos times ignoram as necessidades das mulheres dentro de campo.

“Sou mulher, sou técnica de futebol e ainda me pergunto em que as musas e cheerleaders agregam na modalidade, quando grande parte dos clubes não investem no futebol feminino. Isto não faz sentido”, declara.

Beleza padronizada: cabelo liso, rosto simétrico, altura mediana, corpo magro mas com curvas, são algumas das características das musas dos times de futebol. Mas, se o importante é o amor à camisa, por que então existem estes moldes pré-definidos?

“Infelizmente o papel da mulher no futebol é esse, é usar a beleza como um atrativo para os homens. Eu prefiro não comentar sobre esse assunto porque não entendo o sentido disso. Mas sei que a mulher deve ser vista pelo seu potencial, pela sua inteligência e não pela sua ‘beleza ou sensualidade’”, comentou Emily.

Os dirigentes de futebol costumam alegar que as musas e as cheerleaders fazem parte da tradição dos clubes e que a beleza é um espetáculo à parte. Alguns ainda afirmam que estas meninas são a representação da mulher nos estádios e não um evento para o público masculino, como muitos pensam.

A atitude do dono do Billericay Town, clube semi-profissional da Inglaterra, que em 2017 demitiu o time de cheerleaders por “tirarem o foco dos atletas”, representa o contrário. De acordo com ele, o próprio “uniforme” das cheerleaders é feito exatamente para ser provocante. Apesar disso, ele culpou os atletas, que deveriam estar focados nos seus desempenhos e não nas líderes de torcida.

A equipe da agência Maria Boleira tentou entrar em contato com os dirigentes dos principais clubes paulistas para ouvir seu posicionamento em relação à tradição, mas até o momento do fechamento não obteve retorno.

Fonte: http://www.agenciamariaboleira.com.br/noticia/22/musas-de-futebol-o-retrato-das-mulheres-fora-das-quatro-linhas.html

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